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HIENA

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“[COM O BICHO] PASSARAM A OLHAR PARA MIM COMO UM SER TRIDIMENSIONAL” – NUNO MARKL EM ENTREVISTA

Encontramos Nuno Markl no Casino Estoril, onde atuou perante uma audiência virtual. Apenas mais uma habilidade daquele que pode bem ser uma das caras da adaptação do humor português aos tempos de pandemia.

“Como ser um saco de pancada deprimente e vencer na vida – Uma palestra pelo Prof. Dr. Nuno Markl” foi o espetáculo que a HIENA viu no Auditório Casino Estoril a 31 de agosto. Um privilégio, já que a noite foi desenhada para transmissão exclusivamente online, numa produção da Artfeist Produções Artísticas em conjunto com a plataforma Ticketline Live Stage

Nesta sua palestra, o “Prof. Dr. Nuno Markl” conta-nos várias peripécias que, com sorte ou azar à mistura, o trouxeram até onde se vê hoje. Como a escrita do sketch “A Última Ceia” para o então Herman Zap. O sketch polémico criou tumultos nas franjas mais conservadoras da sociedade e mereceu comentários até de Marcelo Rebelo de Sousa (à data, Presidente do Partido Social Democrata).

Sentamo-nos no palco no final do espetáculo e falamos com Nuno Markl sobre estes tempos em que as artes performativas se reinventaram para a internet, em que as emissões de rádio tiveram de ser feitas a partir de casa e, claro, sobre uma das estrelas da quarentena: “Como é que o bicho mexe?”, os lives no Instagram de Bruno Nogueira que conquistaram Portugal e dos quais Markl foi presença assídua.

HIENA: Foi certamente estranho não teres feedback do público. 

Nuno Markl: Este espetáculo não é stand-up. Gosto muito de ver, mas sinto-me muito espartilhado pela estrutura do stand-up. Set-up, punchline, set-up, punchline, … E portanto eu gosto muito do storytelling. Acho que foi uma coisa que aprendi com os Monty Python: mais do que a punchline, o caminho para chegar até lá é muito divertido. Como aqui os risos estão espaçados pela história, sem nenhum sítio específico onde encaixar, não fico tão dependente do público. Quase como na Rádio.

Eu estou muito habituado a contar este tipo de histórias na Rádio, e na Rádio também não estou a ver as pessoas à minha frente, só vejo os meus colegas. Portanto isto para mim é um tipo de extensão, de remix daquilo que eu faço habitualmente. Por isso, achei muito interessante quando o Henrique Feist [programador dos “Serões no Casino”, no qual integrou o espetáculo em questão] me convidou disse logo que sim, apesar dos nervos. Fico sempre muito nervoso.

 

O Herman [José] estava a ver em casa e gostou. Disse numa história do Instagram que estavas “perdoado” pelo sketch “A Última Ceia”.

(Risos). A sério? Maravilhoso.

 

Estas “modernices” parecem ser algo que gostes de experimentar.

Estava cético. A maneira que eu arranjei para tranquilizar os nervos com que estava foi pensar “ok, vou olhar para isto como um direto de Instagram glorificado. É como se eu estivesse em casa, com a diferença de que estou no Auditório do Casino Estoril (risos)”. Mas tentei manter esse espírito de um direto.

Ainda por cima este já é um espetáculo um bocado rodado e em que surge naturalmente diálogo com o público. Aqui havia algumas pessoas comigo no palco, mas eu estava realmente preocupado com as pessoas que estavam a ver em casa e que eu não fazia ideia como estavam a reagir. Mas achei interessante, sobretudo porque muita gente não conseguiu ver o espetáculo antes e para essas pessoas foi bom. E foi só 3,5 euros, não foi caro (risos)!

 

Esta nova forma de fazer chegar os espetáculos ao público será para ficar?

Não podemos olhar para estas coisas como um substituto definitivo da experiência de estar num sítio, porque é incomparável. Há uma mística que não se consegue repetir, mas é uma solução de recurso interessante para que as coisas continuem a acontecer, apesar das limitações todas.

E fazer emissões de rádio que são das mais ouvidas do país, a partir de casa… deve ter-te acontecido poucas vezes, em mais de… 20 anos de carreira?

Sim, então se contarmos com “O Homem Que Mordeu o Cão” há-de ser 23 ou 24 anos. Mas gostei genuinamente de fazer as emissões em casa e acho que fomos muito sortudos na Rádio [Comercial] porque fizemos a ponte entre os vários estados pelos quais o país passou, fazendo aquilo que fazíamos normalmente. Não paramos. Foi bom para a minha cabeça.

E o facto de estar a fazer Rádio de manhã e “O Bicho” à noite foi incrível. Dormi menos horas do que nunca naqueles dois meses, era ridículo, mas foram tempos de muita euforia criativa.

 

“Como é que o Bicho Mexe”, já agora, que foram as emissões-estrela dos tempos de confinamento… e nas quais foste um dos protagonistas.

A gente começou a fazer “O Bicho” por uma questão de angústia nossa, precisávamos uns dos outros para percebermos o que estava a acontecer e para falarmos dos nossos medos e receios.

 

E perceberam que toda a gente tinha as mesmas dúvidas.

Exato. Portanto aquilo acabou por ser uma grande terapia para toda a gente. Inicialmente era uma coisa para o Bruno e os seus amigos, com “público” a ver, mas quando começamos a ver aqueles milhares de pessoas, 80 mil, 90 mil… Eu via a Oprah (com 19 milhões de seguidores no Instagram) a fazer diretos com menos alcance. É um case study, o próprio Instagram devia andar intrigado com aquilo.

 

Quantos jantares de karaoke fizeste em casa, entretanto?

(Risos). Não voltei a “karaokar” entretanto, com muita pena minha. Estou a guardar-me para quando isto tudo abrir. Mas esse karaoke era muito libertador, porque juntava-se à terapia de estarmos antes a falar sobre temas sérios.

 

“Sérios”…

Houve, claro, muita provocação e improviso, puxávamos uns pelos outros para fazer rir as pessoas. Mas lembro-me, num dos diretos, de desabafar muito seriamente com o Bruno sobre como é que nós explicamos o que está a acontecer aos nossos filhos, e eu não tenho respostas. Emocionei-me a falar disso e tive de me levantar porque estava com lágrimas nos olhos. Toda a experiência foi muito interessante: ser comédia e não ser, ser sincero e ser teatro… Foi uma misturada de coisas, uma hiper-realidade.

Olhando para trás, consegues ver razões para o sucesso d’”O Bicho” para além do excelente timing?

O timing foi perfeito e o Bruno é ótimo. O Bruno foi um maestro tremendo de toda aquela orquestra que eram os diretos. Passar de uns para outros, as novelas que ele criava com o Manzarra… Acho que as pessoas ficaram a conhecer outras dimensões de todos nós.

 

Tuas também?

Várias pessoas disseram-me que passaram a olhar para mim como um ser tridimensional e não como um boneco. Um dos problemas que me levou a começar a fazer terapia é o facto de eu ser um fantoche da minha própria comédia. Eu não faço personagens, faço humor comigo próprio e isso, por um lado, fazia-me bem à cabeça, porque libertava-me destes traumas todos, mas por outro lado fazia-me mal, porque eu já não sabia distinguir o que é que era o Markl boneco do Markl real. E isso começou-me a deprimir seriamente.

A minha mãe dizia-me “é incrível como eu sei primeiro as coisas pela rádio, porque transformas logo em comédia antes de nos contares” e eu pensei “de facto isto não faz sentido”. A minha prioridade era sempre transformar os traumas em comédia, mas percebi que fazia com que me vissem como um “boneco”, uma personagem. 

 

É aquele conflito mental comum nos atores… não conseguem sair da personagem.

(Risos) Sim. Aconselharam-me que fizesse terapia e fez milagres por mim. Ainda faço, agora mais espaçado e não semanalmente, porque me ajuda a ter tudo aqui dentro [aponta para a cabeça] formatado.

 

Ainda sobre “o Bicho”: a TV 7 Dias avançou que o formato será um late night semanal na SIC. Queres comentar (risos)?

Eu tive uns brainstorms com o Bruno e o Filipe Melo no início em que ele [Bruno Nogueira] pensou isso. Eu não te sei dizer se aquilo que a gente andou a magicar é “o Bicho” ou não, porque é impossível replicar aquilo na televisão. Mas apanhar algum do espírito talvez… mas digo-te que a dada altura o Bruno começou a pensar nisso sozinho. Ele pediu umas dicas ao Filipe e a mim no início, mas agora não faço ideia do que anda a magicar. Não sei onde é que a TV 7 Dias foi buscar essa informação, mas ainda bem que me dizes isso, vou perguntar ao Bruno (risos).

 

Para terminar, e ainda sobre estes tempos inéditos… um geek como tu está muito bem em casa, não está?

(Risos). Está, está, eu adoro. Podia trabalhar o resto da minha vida em casa. E sabes uma coisa? Como Hollywood não nos deu filmes novos nos últimos meses, tenho visto coisas antigas, com calma. Eu acho que as séries e filmes novos criam uma pressão tremenda nas pessoas. Porque tens de “estar em cima” do que está a acontecer. Eu lembro-me das pessoas quase me baterem por não ter visto “A Casa de Papel”.

 

Já viste o “Tenet” [o mais recente filme de Chistopher Nolan]?

Ainda não. E já sei que vou levar na cabeça porque está toda a gente a ver o “Tenet” e eu vou ser um dos últimos a ver! Mas tenho visto filmes antigos… no outro dia regalei-me a ver o “Serenata à Chuva” [“Singin’ in the Rain”] do Stanley Donen, filmes do Nanni Moretti… e soube-me muito bem. Um dos lados positivos disto foi retirar-nos a pressão de termos de estar sempre atualizados. E retirada essa pressão, podemos ir ver o “O Tesouro de Sierra Madre” ou o “Casablanca” outra vez’

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