Nuno Pires e Guilherme Duarte no Teatro Maria Matos, em Lisboa | Foto: Mariana Simões (@marianafbrsimoes)

DE SORRISO TAPADO

Chamam-lhe stand-up comedy. A arte de subir a palco apenas com um microfone e pensamentos, em que o único objetivo é colocar um sorriso na plateia. Arte esta que em tempos de pandemia sofre paragens e alterações levando a um “novo normal”. Mas de que maneira é que estas alterações impactaram os espetáculos e será que este “novo normal” é viável?

11 de setembro de 2020, teatro Maria Matos, nos bastidores de um espetáculo de stand-up comedy em plena pandemia. Mais tarde subirão a palco Guilherme Duarte e seus convidados, num espetáculo em que Guilherme é o headliner e os convidados surpresa para o público. Algumas caras jovens como Mónica Vale de Gato e Vasco Elvas, outras um pouco mais cansadas como Guilherme Fonseca e Diogo Batáguas. 

De início, o ambiente é descontraído e fluido, mas ainda um pouco frio. De máscaras na cara, afastados e com as mãos desinfetadas, surgem conversas sobre a pandemia, mas tudo corre na maior das tranquilidades porque Nuno Pires e Henrique Lourenço trabalham para tal. 

“Se a nossa vida de entretenimento, espetáculo e agenciamento fosse isto eu não fazia o que faço” 

Nuno Pires é agente de Guilherme Duarte e produtor da SETLIST. Apesar de tudo, visto que as salas estão a meia casa, não acha que o seu trabalho seja a dobrar, mas sim “mais desafiante”. “Pelo simples facto que antes era marcar um espetáculo, ver se havia público, fazer a promoção, “fechar” os artistas. Agora tens de pensar em fazer isto tudo com meia lotação. Fazer isto tudo com restrições de horários, com consciência que não podem estar demasiadas pessoas quer nos camarins, quer na equipa técnica.” Desde microfones a máscaras, e de álcool a álcool gel é ele e a sua equipa que tratam de tudo, mesmo sendo menos lucrativo e dando “mais dores de cabeça”.

Dores de cabeça que se prolongam para tours inteiras que foram adiadas e algumas podem mesmo não chegar a ver a luz do dia. “Para um agente o pior é a incerteza do meio, enquanto que em condições normais consigo prever o que vai ser o próximo ano. Agora os nossos planos são feitos de dois em dois meses e mesmo assim têm de ser refeitos quando há uma nova medida”, confessa Nuno Pires.

Por falar em alterações devido a novas medidas, este espetáculo não foi exceção. “O espetáculo estava para as nove e de repente passou para as oito, a uma semana antes do evento”. Com isto não é possível avisar toda a gente da alteração porque nem todos compram os bilhetes online. “Aí é dizer aos artistas para avisarem que houve mudança de horário e esperar que haja um bom senso das pessoas, de irem ver se alguma coisa mudou, mas não é certo. Ou seja, se alguém não tiver redes sociais ou não quiser saber, pode chegar aqui às nove, que era a hora do espetáculo, e dar com o nariz na porta. Esta foi a última dificuldade.”

“Eu antes era um otimista de início, deixei de ser. Era um otimista para o fim do ano, deixei de ser. Agora, prefiro ser um pessimista”. Nuno Pires afirma que não é viável continuar a fazer espetáculos assim e “se a nossa vida de entretenimento, espetáculo e agenciamento fosse isto, eu não fazia o que faço.”  

O tempo avança e a hora de subir a palco aproxima-se, o ambiente intensifica-se de tal maneira que alguns até trancados em saídas de emergências ficam.

O espetáculo começa. Entra o primeiro e, dos restantes, alguns estão impacientes a andar de um lado para o outro, a dizerem o texto para não o esquecerem, a pensar e a rirem de maneira nervosa. Em simultâneo, Nuno Pires trata de coisas no decorrer do espetáculo de maneira apressada, para que nada dê errado.

No palco, o ambiente é libertador de certa parte, pois observa-se uma pessoa sem máscara a falar sobre tudo e sobre nada ao mesmo tempo, o que nos faz esquecer um pouco as coisas menos boas de hoje em dia. Das cortinas laterais é possível observar a plateia. É estranho, pois não é comum ver pessoas aos pares, de máscara na boca, isoladas de duas em duas cadeiras, mas é o “novo normal”.

Vasco Elvas sai de palco, vem um pouco mais relaxado depois de ter feito a plateia rir e sorrir, mas de cara tapada. É então a vez de Mónica Vale de Gato entrar no palco.

“As pessoas querem rir, as pessoas querem sair de casa” 

Mónica Vale de Gato ficou com medo quando soube que ia atuar para salas a metade da lotação, com público espaçado e de máscara, não pelo distanciamento, mas pela questão da máscara. “O facto de não poder ver como é que o publico está a reagir à piada é bastante desconfortável para quem está em palco, porque pela expressão das pessoas percebemos se continuamos naquele tema ou se mudamos a abordagem”. No que toca ao distanciamento diz que não é uma barreira, porque sente que não há a vergonha do riso por se estar isolado, pois “as pessoas querem rir, as pessoas querem sair de casa”. 

Por um lado, Mónica sente que “as pessoas não estão tão exigentes porque começaram a valorizar coisas pequenas como ir a um simples espetáculo”. Afirma ainda que o espírito que se vive nos teatros tem ajudado, mas não esquece a preferência por salas cheias e aqueles espetáculos que teve de cancelar porque “não rendia ter que os fazer.”

Seguida da atuação de Mónica Vale de Gato é a vez de Guilherme Fonseca que retira a máscara e entra em palco.

 

“É muito cansativo, mas é a única maneira de termos espetáculos agora,
portanto eu agora vou engolir e calar”

 

Guilherme Fonseca recebeu a notícia das alterações nas salas de espetáculos feita pela Direção Geral de Saúde por fases. Depois de ter parado com a tour de Roda Bota Fora esteve imenso tempo sem atuar e já só queria subir a palco e poder fazer aquilo que gostava. Quando essa oportunidade surgiu pensou: “as pessoas estão afastadas? É verdade. Há menos lugares? É verdade, mas ao menos estamos a atuar.” 

Acha ainda “que as pessoas estão todas assustadas, desconfortáveis e cansadas disto”. Frisando, “não, não é o ideal. Não, não era como eu imaginaria fazer stand-up comedy, mas é melhor isso do que ser responsável por focos de infeção ou ter que ficar mais 8 meses em casa sem atuar.”

Em relação às máscaras a sua opinião não difere muito dos seus colegas, mas encara isto como um desafio. “As máscaras são desconfortáveis para as pessoas, mas não afeta a capacidade de concentração ou de se divertirem com um texto que seja engraçado e se for difícil é melhor porque me obriga a ter mais piada, portanto é sempre bem-vindo.”

Guilherme diz que fazer espetáculos assim, a longo prazo, é “muito cansativo, mas é a única maneira de termos espetáculos agora, portanto eu agora vou engolir e calar. Eu gostava que as coisas voltassem ao normal o mais rápido possível, eu gostava de ter salas cheias, gostava que as pessoas não tivessem máscara, gostava que as vacinas que estão a aparecer fossem de facto eficazes e baratas, eu gostava que isto voltasse minimamente ao normal e que as pessoas possam ver espetáculos sem a pressão do perigo da pandemia.” Até porque “a carteira agradece”.

Guilherme Fonseca sai de palco depois de falar um pouco sobre as suas experiências em supermercados, nos dias de hoje, e sobre o seu novo “guilty pleasure”: os negacionistas. 

Entra Diogo Batáguas, o último convidado da noite, e por fim o cabeça de cartaz sobe a palco para terminar a noite em grande. Entra então Guilherme Duarte.

“Os prós não compensam os contras” 

Os efeitos destas alterações em Guilherme Duarte criaram uma dúvida no próprio, pois não sabia se “valia a pena fazer sabendo que a comédia ia ser muito prejudicada por essas restrições.” Pelos vistos valeu, pois já não é o primeiro espetáculo que este faz com restrições, mas no início o espírito foi de “vamos experimentar e depois logo se vê.” 

O ambiente no teatro “não é o ideal, mas também não é tao mau como eu pensava. Já fiz vários espetáculos em que não se nota depois de estar em palco, mas nunca é tão bom, não há aquele frisson na sala, da gargalhada de uma sala esgotada e o pessoal todo contagiado com o riso.” 

Para Guilherme Duarte “o pior é o distanciamento”, mas mesmo este tem vantagens, pois sente-se que “muitas vezes as pessoas têm vergonha de rir, especialmente daquelas piadas um bocadinho mais negras, e eu acho que a máscara pode ajudar nisso. Talvez as pessoas se sintam mais protegidas com a máscara.” No entanto, “os prós não compensam os contras, mas é tentar tirar algo de positivo disto.”

Na entrega do seu texto estas restrições não mudaram nada, “mas se calhar fez-me estar mais atento para as pessoas. Antes ia mais pelo riso, pela parte audível, e agora vou olhando mais para a plateia.”

Ao contrário de outros colegas, Guilherme Duarte, acha que é viável continuar a fazer espetáculos assim “se o resto se adaptar tudo. Se as salas cobrarem um valor menor, se existirem apoios, entre outras coisas.” “Nós aqui no stand-up é um microfone, um técnico de som e de luz e tá a andar. Então conseguimos fazer com que isto seja minimamente viável. Nunca é tão bom, mas em vez de se fazer uma sala com 400 pessoas pode-se fazer uma de 800 para ter lá 400 dentro.”

Em alguns casos, Guilherme teve que atuar o dobro das vezes para receber o valor de uma em condições normais, mais trabalho, “mas também se testa mais vezes”. Pois tem a oportunidade de subir mais vezes a palco e testar o mesmo texto com nuances e públicos diferentes, melhorando assim cada vez mais o produto final. Mas Guilherme frisa que prefere “sem restrições, mas é preciso tirar alguma coisa de positivo”.

Muitas alterações foram feitas e surgiu um “novo stand-up”. De rosto tapado e público distanciado os espetáculos acontecem. Sem prazo de validade para um retorno ao normal. Até quando é que estes se irão manter de pé?

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