O BICHO QUE NOS MEXE

Quero escrever sobre o Bruno há uns tempos. Assumi comigo mesmo que a única condição para o fazer seria a de não o comparar com outros, até porque o que ele já fez por mim e pela minha geração pertence a uma ordem de grandeza que é tudo menos mensurável. 

A necessidade de reiniciar o sistema e voltar a pôr os motores a trabalhar com comparsas diferentes, premissas por testar e em desconforto redobrado tornam-no numa figura maior do que o próprio humor em Portugal. Uma das frases que mais ouvimos dele é: “o grande problema da consensualidade é ficares refém.” E não é que ao tentar fugir constantemente da consensualidade o Bruno acaba por se tornar num dos mais consensuais entre a geração dele? Que o digam as mais de 1200 pessoas que ontem encheram um estádio para o ver, apesar das temperaturas quase antárticas. 

Uma das principais características do Bruno é ser um tipo de uma educação que hoje se diz “à antiga” mas que em bom rigor é apenas é só educação, coisa que acontece faltar a alguns dos congéneres e a outros tantos que o invejam. Se está no direito de dispor da companhia e engenho de figuras eruditas como Maria João Pires, Miguel Esteves Cardoso, Eunice Muñoz ou Mário Laginha, e num plano paralelo de nomes populares como Toy, Marante, Fernando Rocha ou Luciana Abreu, tal acontece sobretudo pela civilidade que cultiva junto de qualquer uma delas. Em termos práticos, para que percebam com maior detalhe, o Bruno deve ser a única pessoa que nunca deixou uma mensagem minha por responder, por mais impertinente que fosse a hora ou circunstância. 

Podem argumentar que alguém que usa o vernáculo como base do seu trabalho jamais pode ser educado, e é aqui que discordamos. A finura do Bruno vai muito além dos impropérios, que gosta de usar com maior ou menor gratuidade, assentando sim no tremendo respeito e cortesia que tem por qualquer pessoa que com ele partilhe bastidores, plateau ou palco. Mais nobre ainda é perceber que não há para ele circunstâncias em que se oculte ou tente dissimular a herança que carrega – todos sabemos que outrora foi o nerd de Alfragide, que carrega Mogofores no coração, que veio do regaço do Belmiro e da Maria Luísa e que nada o separa da Marisa. Por isso mesmo os expôs ao amor de 13.000 pessoas no dia mais importante da sua carreira, como quem diz “é daqui que venho e ai de alguém que ouse tirar-me isto”.

A grande vantagem que o Bruno tem sobre os restantes é saber-se dependente dos outros, mas nunca amputado. Confia no João Quadros para escrever quatro dias por semana, mas a quinta-feira que lhe pertence egregiamente é sagrada e cumpre-a a preceito. Sabe que seria um Estica com muito menos impacto se em paralelo não tivesse a ampliação do Nuno Markl como Bucha, mas livrem-no de não querer ser o melhor Estica possível.

Os progressos no yoga que reconta nas nossas duas horas de terapia digital diárias são um reflexo de outro trato de personalidade — o impossível para ele é palavra non grata. Até ao final da quarentena deve ter chegado  com as mãos aos dedos dos pés, desse por onde desse, porque a única competição que tem é consigo próprio. As más línguas dizem até que se hoje é nomeado um dos sex-symbol portugueses tal só acontece porque outrora o ousaram comparar com a irmã top model no início dos seus vintes. 

 

Do primeiro reality show na RTP a um documentário sobre o género “pimba” na SIC, calha perceber-se que perto de tudo o que ficcionou no papel teve a sua transposição para o real, seja por obstinação do autor, seja pela mestria com que este executa as ideias que meses ou anos antes veio a magicar. A Odisseia que hoje conhecemos e que muitos viram como um esperdiçamento do erário público esteve para não conhecer a luz do dia, mas num gesto kamikaze o Bruno e a equipa iniciaram a sua produção ainda antes da notícia oficial de que viria a ser comprada pelo canal do Estado. Foi predestinação? Uma sorte do caralho? Até hoje ninguém sabe. A verdade é que perdura como uma luz da televisão livre, com piada e necessária.

Queria deixar nestas últimas notas um reparo sobre a versatilidade. O Bruno é um quase-cantor que partilha palcos com das mais importantes vozes da música portuguesa; um ator em constante formação que começou tímido ao lado dos mestres (Ana Bola, Miguel Guilherme, José Pedro Gomes, Maria Rueff e o eterno António Feio foram os seus principais alicerces na representação) e hoje sobe ao palco do Teatro Nacional por direito próprio e nunca por compadrios. É reconhecido de forma quase unânime como o maior stand-up comedian português, com uma digressão de quase sessenta datas esgotadas até em locais menos óbvios, como Anadia, Mealhada ou Tábua. Depois de dez anos sem tocar no género, e sobretudo depois do medo, sprintou contra a memória póstuma do humorista de fato e camisa branca para em 2019 se encontrar discreto, de t-shirt preta e a anos luz dos tempos em que a piada do código de multibanco dos anões tinha dias melhores do que outros. 

A grande verdade do Bruno é ter crescido à nossa frente, e isso serviu para inspirar tantos outros que se seguiram. Espalhou-se, falhou, falhou melhor e chegou ao dia em que a Liberdade de Abril se celebra também com o nome dele, mas também ao dia em que quase duzentas mil pessoas alteraram horários, saíram à rua mascaradas e encheram varandas com luzes de natal para dizer o grande adeus ao bicho. Até CR7 desnudo fez questão de deixar o abraço lançado pelo Paixão. 

No meio do medo, foi ele que todas as noites disse que “vai ficar tudo bem”, e como o Bruno só trabalha com a verdade acreditamos nele, até porque sabemos que é o único que nos tem direito a dizê-lo.

Viva, Bruno.

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