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RICARDO CARDOSO: “A COMÉDIA É A DOR E A PAIXÃO AO MESMO TEMPO”

Desde miúdo que queria ser o Herman José. Um dia, a sua indecisão nas legislativas valeram-lhe 54 mil visualizações no Youtube. Hoje, conta com mais de nove milhões e é conhecido pelas suas reportagens e pelos sketches de “Falta de Chá”, com Guilherme Duarte. A mais recente aposta foi a ingrata arte do stand-up, onde demonstra a sua grande paixão pela comédia em palco.

Parar é morrer, a vida são dois dias e o Avante são três. Mas a pergunta que permanece é: já sabes em quem votar nas legislativas?

Não sei, ainda hoje não tenho partido político. Acho que o humor te põe com um olhar crítico, depende do ano. Quando era mais novo estava mais frustrado, porque não sabia para que partido é que me havia de virar. Agora já voto com mais consciência, que também não serve de muito. Consigo ver qualidades em todos, mas também consigo ver os defeitos de todos, logo fica mais difícil votar.

 

Estudaste Engenharia Informática durante quatro anos no ISEL. Em 2019, fizeste sete anos de trabalho como consultor informático na NOVABASE. Visto que tens como objetivo viver da comédia, se fosse hoje optarias por outra área ou a informática é uma paixão que está ao nível da comédia?

Não optaria por outra área, gosto muito de informática e é uma área que me dá uma tranquilidade financeira. No país em que vivemos, se não tiveres conhecimentos especiais, convém teres algo que possa suportar o teu início de carreira, seja a trabalhar onde for. Isto porque para começares numa área onde não tens um salário fixo, em que hoje há qualquer coisa, mas amanhã pode não haver, convém teres sempre um plano B. Eu gosto bastante do meu, não me custou muito. O único senão que sinto na informática é não ser uma área muito criativa, é daquelas que levas trabalho para casa. Não consegues desligar!

 

SENTI O AMOR DA COMUNIDADE”

 

Morais, Zorlak e Tji são streamers portugueses que movem algumas massas na internet, desconhecidas por alguns, principalmente no YouTube e na Twitch. Depois dos reacts feitos aos teus vídeos, como foi a resposta da comunidade online quer às reportagens, quer ao “Falta de Chá”?

Receberam-nos muito bem. Ainda hoje há pessoas que vêm ter comigo, porque me viram através deles e “apadrinharam-me”. Senti o amor da comunidade. Há algumas pessoas que veem o original e as reações, houve até um rapaz que me disse que só via “Falta de Chá” através deles, nem via o episódio normal. Nas séries, tinhas os risos enlatados, ali tens uma pessoa que se está a rir e que te ajuda a rir mais, é uma companhia de riso. Os streamers acrescentaram-nos valor e é por isso que no último episódio de “Falta de Chá” tens a reação deles, quase como um tributo. Pusemos aquilo sem eles saberem, porque gostamos do feedback. Aquilo é giro, porque é quase como um público em que tu vês se o vídeo funciona ou não. Quando edito, suponho que a pessoa se vai rir aqui ou ali, mas depois vejo como realmente acontece. Às vezes acerto, outras vezes não. Às vezes é melhor do que esperava, outras vezes menos.

 

Em 2018, no “Live Room Five” com o Tji e com a Mónica Amaral, disseste: “no fim da edição já não me acho piada”.  Achas que isso prejudica o produto final?

Acho que não prejudica o produto final. Sou é demasiado exigente, ao ponto de perder tempo com um “olá” por não o ter dito corretamente ou por não ter sido o mais cómico. Na maioria das vezes, só quando estou a editar é que percebo o caminho e o ângulo do vídeo e isto pode ser desgastante. No final já não gosto de me ver, mas depois mostro a alguém, vejo a reação dessa pessoa e fico um pouco mais contente. Apesar de tudo, ainda bem que tenho um tempo limite, porque senão podia ficar dois meses para lançar um vídeo.

 

E já alguma vez ponderaste em ter um editor que não tu?

Já ponderei e até já tive em dois vídeos e não correu mal. Foi o Miguel D´Eça. Ele grava comigo, percebe a minha mentalidade e deixa-me chateá-lo quantas vezes eu achar necessário. Tem paciência para mim, então correu bem, mas lá está, tem de ser alguém em quem confies muito. No “Falta de Chá” também temos uma pessoa, o João Vicente. Ele edita tudo e depois, eu e o Guilherme dizemos o que achamos que fica melhor. Estas duas pessoas são especiais, no aspeto de quererem muito fazer coisas boas e têm olho para a comédia.

 

“NECESSIDADE DE COMUNICAR”

 

Durante a pandemia gerada pela COVID-19 criaste o “Quarentena Show”. Um talk show no Instagram onde falas com o teu público e com convidados especiais para perceberes como é que estavam a viver a quarentena. Qual foi a principal motivação que conduziu a este projeto?

A necessidade de comunicar enquanto estávamos a ser confinados. Pensei em fazer um mini talk show, inicialmente para ver como é que pessoas aleatórias estavam a viver a situação. Achei piada a este conceito de entrevistar desconhecidos e, depois aproveitei para ver como é que certos convidados especiais estavam a passar por isto. Tornei aquilo numa coisa regular, mas via Instagram, em que a qualidade é péssima, o som é péssimo, tudo é péssimo, mas foi divertido.

 

Nos últimos anos, alguns festivais de música têm vindo a apostar em palcos exclusivos de comédia. Já estiveste presente em alguns e com todas as condicionantes que destes advêm, como o não controle dos silêncios, demasiada luz, pessoas a entrarem e a sair, e o facto de não estarem ali por ti. Consideras que, com as devidas mudanças, os festivais possam vir a ser os “Tivolis” do verão?

Acho que há esse espaço. Já funciona suficientemente bem, mas a meu ver nunca será um espaço como um teatro ou um pequeno bar fechado. Eu sou muito crítico nos espaços em que faço stand-up, porque o espaço influencia muito. É exequível? É. Já me correu bem, mas nunca é o mesmo comparado a um teatro. Enquanto neste, com as condições certas, consegues pôr as pessoas a rir muito mais, nos festivais não teres os silêncios nem o público compacto afeta os risos. O stand-up começa a estar na moda e por isso vejo algum futuro, mas mais por explorar formatos audiovisuais e com interação do público. Stand-up puro e duro depende muito de como é construído o palco e como está o ambiente. Há festivais que têm o cuidado de começar os espetáculos de stand-up mais cedo, outros até criam uma estrutura mais isolada. Acho que pode resultar, mas, la está, nunca vai ser um teatro.

“A COMÉDIA VAI SER SEMPRE A MINHA DEFESA”

No podcast “Sem Barbas na Língua”, com Guilherme Duarte e Hugo Gonçalves, referiste que a tua infância foi agitada e que o humor serviu como remédio, pois ajudou-te a ter outra perspetiva do mundo. “Comédia era a minha defesa.” Ainda sentes que a comédia é a tua defesa ou evoluiu para outra coisa?

Evoluiu de algum modo, porque a tentei profissionalizar. Muitas vezes, apeteceu-me desistir, só que não consegui. Acho que a comédia vai ser sempre a minha defesa. Fui criado em certas condições que me obrigaram a ver as dificuldades do lado mais cómico e, as vezes em que falo mais sério, acabam por ser em entrevistas ou com outros comediantes, porque acabamos por ter alguns pensamentos semelhantes. Falo muitas vezes com o Guilherme Duarte e estamos sempre a ter conversas sérias, mas depois há parvoíce lá no meio. Com outra pessoa, levo para o lado da parvoíce. Existe uma pressão de fazer rir, quando te encontras com alguém que te conhece, mas há dias que não me apetece e não faço. Se calhar devia, mas não o faço, porque é um lado humano. Diria que é uma defesa para o meu dia a dia e para lidar com os outros, mas percebo que possa até ser uma escolha ver sempre um lado engraçado nas coisas.

 

“O SOFRIMENTO NÃO COMPENSA A ALEGRIA”

Tu próprio dizes que a comédia é ingrata. Passas duas horas a escrever uma piada para dois segundos de riso e esta morre após ser dita, ao contrário de uma música. Ficas ainda imensamente nervoso antes de subires ao palco, ao ponto de teres pensamentos autodestrutivos. Visto que já lá vão alguns anos disto e é o que pretendes fazer no futuro, consideras-te um pouco “masoquista”?

Relativamente à primeira parte, tu podes ter demorado o mesmo tempo a escrever uma ou duas piadas boas do que um cantor a escrever uma letra. Quando tu dizes a piada, o público reage e ela desaparece automaticamente, agora querem é a próxima. Às vezes, até atuo em sítios diferentes e existem pessoas que já me viram e, como não percebem o que é testar material, interrompem-me a dizer que já conhecem e alguns até completam as minhas piadas. São pessoas que não percebem que estão a estragar o espetáculo e é ingrato de certa maneira. Na música, escreves e as pessoas não se importam de ouvir o som várias vezes. Se gostarem ainda melhor, podes levar aquela música a festivais e cantá-la durante 10 anos, as pessoas vão continuar a gostar. O stand-up é ingrato em vários pontos como enfrentar um público, principalmente, quando não há as condições certas, não saberes o que vai acontecer naquela noite, às vezes não saberes onde vais atuar, quantas pessoas vão estar lá e como é que vão reagir às tuas piadas. Escreves as piadas em casa, mas só sabes se têm piada até as testares no palco. É igual a teres um paraquedas e a única forma de o testares é se saltares do avião. Se abre funciona, se não abre não funciona. Tal como no paraquedismo, se não funcionou morres ali, não literalmente, mas vais para casa passar um mau bocado. Quando corre bem, ficas contente, mas todo o sofrimento não compensa a alegria. Com a experiência reduzes esse sofrimento e começas a gostar mais. Pode-se dizer que sou “masoquista”, sendo que a comédia é a dor e a paixão ao mesmo tempo.

 

Segue o Ricardo Cardoso no Instagram e no YouTube.

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