Ricky Gervais em The Office

SE DEUS CRIOU A VIDA, THE OFFICE IMITOU-A

Quando nos iniciamos seja no que for há, naturalmente, uma rima com o nascimento. Somar um a um conjunto já existente nunca será igual a somar um onde nada havia pese embora a matemática nos dizer que se tratam de valores iguais. 

 

O convite para escrever estes textos chegou e logo sabia que a minha descarada (e inútil) tentativa de conhecimento enciclopédico sobre humor me preencheria as páginas com temas potencialmente interessantes para cromos como eu, e espero, que nós.

 Veio, então, a rima dos inícios. Queria escrever sobre uma obra humorística à qual consigamos atribuir uma espécie de início. Uma era nova ou, simplesmente, um objeto que fosse aquela peça de dominó à espera do toque inicial antes de se diluir, esquecida, no caos sequencialista que a própria causou.


  A verdade do falso documentário

 

 Não há, na contemporaneidade, série mais fundadora do que The Office, uma criação de Stephen Merchant e Ricky Gervais. 

O nome vago, a estética propositadamente entediante com planos dominados pelo cinzentismo de uma pequena cidade britânica e o silêncio quase aterrador a emanar deste cenário seco de excentricidades – literal a nível de cenografia e metafórico acerca do panorama emocional das personagens – podia adivinhar uma série esquecida no meio das experimentações da BBC. 

Ao invés, assistimos a uma série com pouco mais do que uma dezena de episódios a trilhar o caminho televisivo para as décadas seguintes. 

The Office não inventou o mockumentary Zelig (Woody Allen, 1983) e Spinal Tap (Rob Reiner, 1984) facilmente o desmentem – mas reinventou-o. 

A comédia, umbilicalmente ligada às referências sociais conscientes ou não, não é uma forma artística que se possa dizer que nasce, assim, do nada. É óbvio que The Office bebe destes formatos anteriores mas abre uma porta fundamental: a vitória do real. 

Enquanto a comédia mainstream ainda vivia sob formatos muito concretos a nível de argumento e produção, The Office traz para a mesa uma conceção humorística onde os gags quase cronometrados, as personagens coloridas e os fins aliviados são substituídos por um ponto narrativo não tão conclusivo e pouco importado com essa formatada  conclusão. 

 

O rompimento com as narrativas tradicionais


A primeira dilaceração nesse status quo prevalecente no mainstream veio na forma de encarar o Tempo. Não é estranho ouvir, seja de quem for, que o segredo da comédia é o timing. Porém, esta verdadeira assunção é muitas das vezes pervertida numa justificativa para a utilização temporizada de punchlines ou arcos narrativos clássicos. Algo tem, nesta visão, de acontecer. 

Em The Office, as coisas acontecem. Não seguem é uma lógica transformadora de carácter ou um fim geral salvador ou crucificador. Não é, digamos assim, uma estrutura clássica de três atos. 

A situação contextual de cada cena é o seu próprio fim. O marasmo emocional daquelas personagens é o lugar onde nos vamos rir sempre. 

As personagens são pessoas normais cujos sentimentos oscilam entre a falsa importância de um cargo de chefia intermédia ou a falta de ambição pessoal que possa catapultá-los para fora dali. 

As personagens estão cifradas num tempo contrário ao habitual das comédias mainstream. Não são jovens sassy e arrojados cuja beleza ou talento lhes augura um futuro brilhante nem são o nostálgico chefe de família que, vivendo da evocação do passado, navega ainda no seu carisma bigger than life

As personagens em The Office estão emaranhadas num tempo pessoal a que podemos chamar entediante. Esta vida aborrecida que lhes decretamos é a vida que têm. Não há mais nada para além disto. Esse lado dramaticamente realista leva à construção de um teatro de emoções que tenta fintar esta inevitabilidade. As tramas geniais de The Office são sobretudo, sobre o ridículo de querer fintar a evidente aborrecida existência. Pode-se dizer que são uma metonímia da própria vida: pessoas a tentar distrair-se para evitar confrontar-se com a falta de sentido – ou pior, a insignificância – nisto de estar vivo.


A recusa daquela existência e o potencial cómico deste abismo


 A personagem de Ricky Gervais, David Brent, é especialmente emblemática. O desconforto das suas interações e comentários advém, quase sempre, da sua recusa em aceitar o tédio. É um lunático que quer arranjar, através de uma poesia desmesurada das coisas, um sentido. Quer, de uma reunião, um festival ou, de uma festa de aniversário, um espetáculo de stand-up. Falha. Falha sempre. Aliás, essa sedenta busca pelo protagonismo torna-o desprezível. 

É particularmente fascinante a distanciada forma como a mesma personagem surge na versão americana da série. O Michael Scott, de Steve Carell, é ingénuo e quase dócil na forma familiar de ver os seus colegas. David Brent, não. Brent é constrangedoramente egoísta. É um tipo com uma componente dramática avassaladora. Vive num abismo de falhanços. Chega a ser angustiante imaginá-lo em casa sozinho sem o seu palco, o escritório, local onde combate a óbvia – para os outros, não para si – decadência de uma vida acalentada por sonhos megalómanos. 

Este tédio onde mergulham as personagens de The Office é quase paradoxal. Aos olhos dos standards mainstream a sua descrição parece uma pasmaceira narrativa irremediável. Quase uma anti-comédia. Porém, o desenlace é extremamente significativo. O desenlace é, na verdade, a vertigem da existência. A busca incessante, mas sempre falhada, de um sentido. 

Atente-se até no arco amoroso das personagens Tim e Dawn. Por muito bonita que seja sempre a vitória do amor, esta será, porventura, a mais entediante – e talvez, por isso, realista – da história do audiovisual. 

Não há loucuras, fantasias ou atos transcendentes de superação. Há, apenas, duas pessoas que se cruzam, se apreciam mutuamente e se cortejam intensamente para, também elas, à sua maneira, fugir daquele marasmo. Esta é a nossa experiência habitual com o amor. Um acaso fortuito que nem parece habitar no mesmo mundo de coisas irrelevantes que é o   nosso. 

Toda esta dimensão quase reflexiva da nossa própria experiência do real encaixa que nem uma luva no formato de documentário falseado. The Office é também uma das séries inauguradoras desta era em que as narrativas mediáticas vivem do aparente comum ao invés da exceção. É a era dos reality shows e das redes sociais. Uma dimensão que contamina a própria ficção e nos atira para contextos muito mais identificáveis do que as hollywoodescas representações do passado.

O mockumentary para além do formato


 O brilhantismo de qualquer criador passa, não só pela ousadia da sua ideia, mas também pela capacidade de encontrar o dispositivo que melhor a serve. Daí que os formatos mimetizados de The Office – como Parks and Recreation ou a própria versão americana da série – acabem, em alguns momentos, suplantados pelas possibilidades do formato. 

 A atração pela possibilidade do dispositivo leva a quebras da coerência narrativa ou da própria estrutura emocional das personagens em detrimento de um gag mais imediato. A esta cedência, Gervais e Merchant não procedem. Delimitam, com grande brilhantismo, aquele abismo cómico do aborrecimento onde mergulham, sem salvação, aquelas personagens e, sem vos querer assustar, onde também nós próprios acabamos por nos perceber nesta vida.

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